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Um espaço simples de contos e crônicas também simples, mas que encontraram um lugar para existirem

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Ele era diferente naquela cidade hostil, era sim e todos comentavam, todos diziam. Era como um quadro congelado de um dia passado, como algo que não “evoluiu” com o tempo, algo completamente anacrônico.

Diziam que ele era um bardo e sim, ele era. Um jovem simples com seu violão a trovar por aí. Cantos doces numa voz desafinada e completamente sem dissicronizada do ritmo do seu violão. As pessoas que por ali passavam estranhavam, tal figura e tal música, mas muito se encantavam com a graça do bardo. Ele parecia tão feliz e tão animado em meio aquele dia-a-dia tão árduo.

Começaram a se questionar sobre como aquilo era possível, uns diziam que era fácil, afinal ele era surdo e de fato, era surdo. Não escutava uma só palavra do que as pessoas diziam e nem do que ele mesmo dizia, os aplausos, as vaias, as críticas e os elogios, todos eram em vão. Mas ele sempre continuava daquela forma alegre e carismática.

Ninguém nunca o entendeu a fundo, apenas a menina solitária que chorava em um canto solitário. Ela que deixava as lágrimas lavarem o sofrimento e que foi cativada pelo cantarolar desafinado do bardo e com um tímido sorriso que ele também retribuiu, entendeu que o que ele sempre ouviu foi o som dos corações.

Era uma entidade a parte que alegrava-se no pingo de alegria que o coração das pessoas tinham, alegrava-se nos sentimentos que eram compartilhados com ele mesmo ele não os ouvindo e sabia que valia a pena o que fazia pelo simples sorriso, que brotava da flor da menina solitária e lhe dava um pequeno raio de luz, para seguir em frente nessa cidade tão gelada…

A minha vida é uma bagunça. Digo isso porque tudo ao meu redor parece sempre bagunçado: meu cabelo anda sempre bagunçado, meus pensamentos são bagunçados, minha agenda é bagunçada e meu quarto é bagunçado.


Por esses motivos, sempre julguei essa bagunça como algo ruim, sempre foi difícil me organizar e às vezes, conviver comigo mesmo. Não ter esse senso de direção, a organização para saber onde estão as coisas e uma direção a seguir, me prejudicou algumas vezes.


Mas os ciclos lunares passam junto aos anos e as coisas mudam, menos toda essa minha bagunça que, na verdade, só cresceu junto comigo.


Hoje, coisas se acrescentaram a essa bagunça, isso porque eu te conheci, começamos a nos amar e conviver juntos. Agora, toda vez que você deixa a minha casa, eu preciso verificá-la para ver se nada ficou para trás: algumas vezes é uma blusinha, outras é uma pulseira ou um brinco ou fios de cabelos…

A minha bagunça aumentou, junto a ela, rastros da sua presença impregnam o meu quarto: o seu perfume sempre está no ar, o seu shampoo no meu travesseiro e as coisas que você deixou para trás ficam para lembrar da sua imagem.


Porém, não é só isso, sempre que você vai embora minha cabeça fica bagunçada, minha rotina fica bagunçada e meu coração fica bagunçado…


Foi você com tudo isso que me mostrou que “bagunçado” também tem um significado bom, uma bagunça que mexe com a gente, que nos faz pensar e crescer, uma bagunça que te instiga, que te questiona e que te empurra para frente. Porque todo dia que passo com você, me torno alguém melhor, todo dia que passo com você, me torno alguém que quer ser melhor e maior, todo dia que passo com você, me bagunço ainda mais. E é por isso que ainda sou bagunçado, mas com a enorme certeza de que quero me perder nessa bagunça, mais e mais…


Eu te amo,


Happy Valentine’s Day.

                Lembro-me de quando eu era criança e as coisas costumavam me encantar com certa facilidade, tudo parecia tão novo e tudo parecia diferente frente aos meus olhos. Com o tempo, parece que você aos poucos perde esse “dom”, começamos a andar com objetivos certos e não mais guiados por nossos pais e isso muda nosso foco de atenção. Passamos a ter o tempo contado das coisas e não nos permitimos um segundo para apreciar as pequenas coisas.

                Parece uma dura realidade que vivemos, mas ainda assim, existem horas em que a vida te permite voltar a esse espaço, chamam isso de coincidência. São coisas que não esperamos acontecer e logo acontecem, nos ligam em diferentes tempos e espaços, nos fazem lembrar coisas que acreditávamos ter esquecido e ao mesmo tempo as projeta para o futuro. Um pequeno de tempo em que parece que seu mundo gira numa velocidade absurda, mesmo você querendo que o tempo pare para tentar processar tudo aquilo.

                Como quer que seja, é bom voltar a ter pequenas coisas em sua vida…

                Aos 21 anos, me sinto novamente como criança. Uma sensação que é um misto entre sentir-se estranho e sentir-se feliz. Como uma boa criança, descobri que preciso (re)aprender inúmeras coisas e que, como grande aliado, tenho esses olhos que parecem enxergar além, que me permitem ver coisas que normalmente eu ignoraria ou não veria, mas não vou me estender, não ainda.

                Estou tendo que aprender a falar: de modo que não te machuque e do modo que minhas palavras sejam claras, que demonstrem  o carinho e o amor que tenho por você do melhor modo possível, afinal as palavras são um dos poucos modos que conheço de dizer que a amo.

                Voltei a aprender a olhar: os pequenos sinais que você me dá quando está incomodada e que quebram o meu egocentrismo, preciso lembrar que você agora faz parte de mim, da minha rotina, da minha vida e que é preciso perceber os momentos de parar e de continuar. Também estou aprendendo a ver a beleza nos seus pequenos atos, pena que esse é um universo particular que pouco posso compartilhar com as pessoas, levaria um livro inteiro para tentar fazer as pessoas entenderem que o modo como você sorri é único e, além disso, perfeito.

                Aprendi a dividir e guardar: dividir emoções, dores, felicidades, tristezas, momentos e lembranças. Guardar segredos que são nossos, momentos que as outras pessoas não irão entender.

                Por fim, aprendi a andar: não só com as minhas duas pernas, mas com as 4 que agora temos. Sempre andando para frente, no mesmo ritmo, compartilhando o que está no caminho, afinal, não me importa muito o final da história, mas sim as coisas que estamos vivendo durante todo esse trajeto…

A vida de escritor às vezes nos prega algumas peças. Faz um tempo que quero produzir algo e simplesmente não consigo. Acho que chamam isso de cãibra do escritor (ou qualquer coisa do gênero). Tentei de tudo: fechar-me no quarto com uma folha e caneta, sair observando coisas diferentes, tentei escrever por escrever e ver se algo fluía, fiquei de ponta cabeça com uma maçã na boca (ta, eu não faço isso), reuni todas as coisas agradáveis e gostosas a minha volta e nada.               

E esse é o maior problema, nada saí e aquilo dentro de você gera um grande incômodo. É como aquela comida que não lhe caí bem, que fica ali te incomodando, incomodando e querendo sair do seu corpo de alguma forma. Perdão pela comparação, meus sentimentos e minhas ânsias não são tão repugnantes assim, pelo contrário, são sentimentos belos e nobres que querem ganhar voz.

                Então, vamos para a hipótese de que eu sou incompetente como escritor. Não sei transcrever em palavras as minhas idéias, muito menos torná-las acessíveis para os outros. Mas não é isso que quero alcançar em meus escritos, quero despertar nos leitores os sentimentos deles e não os meus.

                Termino então com a minha teoria mais certa: há coisas que eu não consigo explicar, há coisas que eu não consigo traduzir. São coisas que me pesam, me trazem responsabilidades, muitas vezes um peso nos ombros. Mas esqueço de tudo isso, porque são essas coisas também que alimentam o meu amor por você. Eu simplesmente não sei explicá-lo, não sei traduzi-lo e sempre que vou declará-lo, pareço um babuíno tentando dizer algumas palavras. Porém os meus gestos, os meus carinhos e a minha dedicação tentam demonstrar o que sinto. Não tenho porque continuar esse texto, já lhe disse que não sei explicar esse amor, abandone essa leitura e venha para os meus braços, viva o inexplicável comigo…

  Dizem que os poetas são aqueles que escrevem as coisas do dia-a-dia com outros olhos. Não sei dizer bem se isso é verdade, mas aqui escrevo uma cena simples de um dia-a-dia qualquer.

  Estávamos no shopping e você me esperava do lado de fora, eu tinha me ausentado por pequenos instantes e quando voltei, te vi ali. Segurando aquele balão que ganhamos, de costas para mim, apoiada no parapeito e completamente distraída. Te confesso que fiquei muito tempo, parado naquele corredor. Não sei dizer se foram meus “olhos de poeta” ou meus simples olhos apaixonados, mas aquela era a cena mais linda que eu já vi.

  Você estava tão natural, tão distraída. Porém, para mim, não existia mais nada além de você, aquela garota delicada brincando com o balão entre os dedos, as pernas cruzadas de modo gracioso, a ponta do pé batendo no chão e o olhar perdido. Queria ter ficado lá por mais tempo, mas meus braços chamaram pelo seu corpo naquele abraço tão simples e gostoso. Então eu ganhei aquele seu sorriso lindo…

  Desculpem poetas…desculpem por não terem os meus olhos e não conseguirem ver o que eu vi. Fiquem com a imaginação da cena descrita, mas acreditem…Não vai chegar nem perto do que eu vi…

  - Ei! Você esqueceu isso!

  Foi o que o fez parar por um instante e voltar-se para trás. Ela ainda estava com o mesmo sorriso completamente enigmático no rosto, as mãos voltadas para trás. Sem entender direito, aproximou-se dela e foi surpreendido por um abraço forte, um beijo no rosto e sentiu algo caindo sobre o seu bolso. Ficou completamente envergonhado e despediu-se novamente, naquela proximidade era fácil perceber duas coisas: O perfume doce que ela tinha e ele sabia que não ia esquecer tão cedo e a bala de menta que ela estava na boca.

  Depois cada um seguiu o seu caminho, ela tinha um sorriso um pouco mais contente e também o sorriso de alguém que acabou de aprontar algo. Ele ainda estava confuso com tudo aquilo, colocou a mão no bolso e foi surpreendido por uma foto 3x4 dela, no verso a frase “não se esqueça de mim” e uma bala de menta.

  Ela tinha planejado tudo e mesmo num ato tão simples, tinha conseguido marcá-lo. Porque agora ele girava a bala de menta entre os dedos, lembrando-se do sabor dos lábios dela, as suas roupas estavam com o seu perfume e a foto não o deixava esquecer os momentos que queria reter. Aquilo aumentava a vontade dele de uma forma absurda, queria vê-la, queria tê-la, queria…simplesmente repetir a cena que mais parecia de um filme, ingênuo, doce, bem pensada e principalmente, só deles.

  Afinal as coisas pequenas e particulares são as que te marcam, para algo ou para alguém e são coisas apenas dos dois para os dois…

  Dizem que os poetas estão mortos…

  Mas não acredito nisso. Acredito sim, no garoto que leva um caderno embaixo do braço e rabisca algumas coisas, sentado em um lugar qualquer. Ou na garota que olha pela janela embaçada a chuva caindo lá fora e não enxerga apenas a chuva, e sim tudo que vem com ela, os sentimentos, o som, o vento e tudo mais.

  Acredito no garoto que treme ao ver a garota que ama e mesmo tendo treinado tanto tempo em frente ao espelho, gagueja na hora de falar tudo o que tinha de falar. Acredito nos que choram por amor e não o condena, pelo contrário, ainda quer crer que ele existe nesse mundo tão frio.

  Acredito em todas essas pessoas que escrevem as suas poesias nos atos, dia-a-dia, a poesia nunca morre, sempre está no coração de todas as pessoas. Agora os poetas…bom, todos somos, mas são os poucos que se entregam e se revelam, ficando nus para que as pessoas digam o que querem dele, dos seus sentimentos e das suas criações, são poucos os que tem coragem de bater no peito e dizerem que são poetas, que são românticos e que são escritores. Mas também são esses que inspiram os mais reservados, para que o ciclo não termine, nessa sucessão entre silêncio e coragem…

  Certo dia encontrei um bichinho e resolvi criá-lo. Ele era bem pequeno, quase não dava para vê-lo e eu comecei a alimentá-lo. Aos poucos ele começava a crescer a medida em que eu cuidava dele, mostrou-se um bichinho muito bonito, alegre e animado.

  Quando eu notei, ele estava junto comigo em todos os lugares, mas era uma companhia boa que sempre levantava o meu ânimo e minha alegria, foram bons momentos em que passei graças a esse bichinho.

  Ele foi crescendo cada vez mais e mais, tomando grande proporções. Mas quanto mais ele crescia, mais ele ia perdendo aquele ar de antes. Agora ele tinha um nome: Esperança. E ainda assim, eu continuava a alimentá-lo com a certeza de que ele ia voltar a ser alegre e animado, que íamos passar bons momentos juntos novamente e que aquelas feições que ele ganhava eram como uma doença passageira.

  Porém agora estou aqui, em meu quarto sem saber o que fazer. Esperança está enorme, gigante e ainda mais grotesco e está lá fora, querendo me devorar, querendo me destruir, querendo acabar comigo. Eu o alimentei tanto que ele se tornou isso…

  Estou com uma faca na mão. Preciso matar Esperança, mas como se mata alguém que você cuidou com tanto carinho e afeto? Abro a porta do quarto, afinal, sou eu ou ele…

 

[Para que entendam o conto, vou contar um pouco da visão de alguns povos e crenças sobre a libélula. Muitos acreditam que ela é o símbolo da força, ao mesmo tempo que é o símbolo de mudanças e dos sonhos.] 

  Daquele lugar, um pouco mais alto que a planície à frente, dava para se ver um enorme campo, onde a grama baixa tomava conta de tudo, perdendo apenas para um enorme lago ao centro. A noite estava escura e esse era o palco preferido para os vaga-lumes que voavam em todas direções, pareciam pequenas luzinhas que acendiam e apagavam em vários pontos, dando um festival de luzes único.

  Sobre o lago, voavam as libélulas com toda a sua velocidade e delicadeza, tocando a água e produzindo pequenas ondas e a garota jurava ouvir uma nota musical a cada pequena onda. Um cenário perfeito para se estar.

  Mas algo era estranho aquele cenário e aquele algo era ela. Deitada em uma cama em meio aquele festival, as pernas não se moviam, o corpo não se movia. Era um corpo vazio, esvaído de motivação. Não queria levantar dali e sabia que não conseguia mais, não tinha por que fazê-lo…

  Foi então que as libélulas foram até ela, pingando de seus corpos água sobre sua face, escorrendo abaixo dos seus olhos como lágrimas que ela não conseguia parar de chorar. A dança sobre a sua cabeça fez com que ela levantasse a mão para tentar alcançar a liberdade que eram aquelas libélulas. E assim o braço se levantou.

  Elas esquivaram com um ar de graça e se afastaram um pouco. A garota respirou fundo e as pernas se moveram, atrás daquelas libélulas. Então correu por aqueles campos, tentando alcançá-las, o vento batendo sobre sua face, o gélido em seus pés… Finalmente tinha conseguido uma motivação para sair daquela cama.

  Mas o frio que sentiu foi do suor e do vento que entrava pela sua janela, acordou assustada.  O quarto estava escuro em um silêncio mortal, a cama ainda era a mesma e o corpo ainda era o mesmo, pregando peças a ela e não tendo motivação alguma para se mover. Ela decepcionou-se, porém logo ouviu as batidas em sua janela aberta. Ali estava uma libélula…

Agradeço a Jade pelo tema.